Para muitos homens, receber o diagnóstico de câncer de próstata vem acompanhado de uma segunda notícia, que gera quase tanta ansiedade quanto a primeira: existe mais de um tratamento possível, e a escolha é compartilhada com o paciente. Quando a doença está localizada na próstata, as duas opções mais conhecidas são a cirurgia (prostatectomia radical) e a radioterapia. Neste artigo, explico como cada uma funciona, o que os estudos mostram sobre seus resultados e quais critérios costumam pesar na decisão.
Antes de comparar cirurgia e radioterapia, vale lembrar que existe uma terceira estratégia, a vigilância ativa. Ela é indicada principalmente para tumores de baixo risco e consiste em acompanhar a doença de perto, com PSA, ressonância e biópsias periódicas, tratando apenas se houver sinais de progressão. Para parte dos pacientes, adiar o tratamento significa também adiar (ou até evitar) seus efeitos colaterais. Essa é uma conversa que deve acontecer em toda consulta, antes de se falar em cirurgia ou radioterapia.
A prostatectomia radical remove a próstata e as vesículas seminais e, em casos de maior risco, os linfonodos da região. Hoje, a técnica mais utilizada em centros especializados é a cirurgia robótica, realizada por pequenas incisões, com visão tridimensional ampliada e instrumentos de alta precisão. Como a próstata é retirada por inteiro, o material é analisado em detalhe pelo patologista, o que fornece informações precisas sobre a extensão real da doença.
A radioterapia trata o tumor com radiação direcionada à próstata, sem retirá-la. Existem duas formas principais:
Dependendo do risco da doença, a radioterapia pode ser associada ao bloqueio hormonal (hormonioterapia), que atua de forma complementar e traz seus próprios efeitos, como ondas de calor, fadiga e queda da libido.
O estudo mais importante para essa comparação é o ProtecT, publicado no New England Journal of Medicine, que acompanhou por 15 anos homens com câncer de próstata localizado divididos aleatoriamente entre vigilância ativa, cirurgia e radioterapia.
O principal achado: a mortalidade pelo câncer de próstata foi baixa nos três grupos, em torno de 3 a cada 100 homens, sem diferença significativa entre cirurgia e radioterapia. Ou seja, para a doença localizada, as duas abordagens têm eficácia oncológica comparável.
O estudo também mostrou que o desenvolvimento de metástases foi quase o dobro no grupo da vigilância ativa em comparação aos grupos tratados, o que reforça que a vigilância ativa deve ser reservada para casos bem selecionados, de menor risco.
Como os resultados de controle da doença são parecidos, a decisão costuma girar em torno do perfil de efeitos colaterais de cada tratamento:
Cirurgia
Radioterapia
Em resumo: a cirurgia concentra seus efeitos de forma mais precoce (urinários e sexuais), enquanto na radioterapia eles tendem a surgir de forma mais gradual e também envolver o intestino.
Esse é um ponto importante e pouco discutido na hora da decisão. Se o PSA voltar a subir após a cirurgia, a radioterapia de resgate pode ser indicada na região onde estava a próstata. O caminho inverso, operar após a radioterapia, é tecnicamente mais difícil, apresenta maior risco de efeitos urinários e sexuais e fica reservado a casos muito selecionados. Por isso, a ordem dos tratamentos importa, e essa possibilidade futura também entra na conversa.
Não existe uma opção "melhor para todos". A indicação depende de uma avaliação individual, que considera:
Em muitos casos, a decisão ideal envolve a avaliação conjunta do urologista e do radioterapeuta, para que o paciente conheça as duas perspectivas antes de escolher.
Qual tem maior chance de cura, cirurgia ou radioterapia? Para o câncer de próstata localizado, os estudos mostram resultados oncológicos comparáveis. A escolha costuma depender mais do perfil de efeitos colaterais e das características de cada paciente do que de uma superioridade de uma técnica sobre a outra.
A radioterapia causa menos impotência que a cirurgia? No início, costuma causar menos. Porém, a disfunção erétil após a radioterapia tende a ser progressiva, podendo surgir ao longo dos anos, enquanto na cirurgia ela é mais intensa logo após o procedimento, com possibilidade de recuperação gradual.
Posso fazer radioterapia depois da cirurgia? Sim. Se o PSA voltar a subir após a prostatectomia, a radioterapia de resgate é uma opção bem estabelecida. Já o caminho inverso (cirurgia depois da radioterapia) é muito menos comum e mais complexo.
Todo câncer de próstata precisa ser tratado logo após o diagnóstico? Não. Tumores de baixo risco podem ser acompanhados por vigilância ativa, com exames periódicos, e tratados apenas se houver sinais de progressão.
Devo ouvir mais de um especialista antes de decidir? É uma boa prática. Conversar com o urologista e com o radioterapeuta permite comparar as opções com informações completas, o que costuma trazer mais segurança na decisão.
Cada caso tem particularidades, e a melhor decisão é aquela construída em conjunto, com base nas características do tumor e nas suas prioridades.
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Artigo escrito por Dr. Romulo Nunes, urologista com foco em tratamento de próstata, câncer de rim e câncer de próstata. CRM 191387/SP.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada.
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